ghosting
ou a arte de proteger seus pontos fracos
Ontem minha psicóloga me deu uma tarefa: escrever uma carta para a minha versão adolescente.
Para contexto, eu estava falando sobre a frase “hobby é uma palavra que os adultos inventaram para poderem brincar”, que vi por aí na internet, e me tocou muito. Essas palavras me pegaram no meio de um processo de auto-aceitação da minha criança interior, me levando à conexão com atividades que eu gostava quando era pequena: desenho, pintura, trabalhos manuais… E pensei: por que não estender esse processo para a adolescência?
Lembrei de uma ocasião em que, aos 13 anos, uma amiga ridicularizou uma menina da nossa escola, na época com seus 9 ou 10 anos, por ela ser muito criança e ainda brincar com os amigos (alô? ela é uma criança!). Então eu disse que ainda “brincava”, porque eu de fato me trancava por horas no quarto, ouvindo música e criando histórias, o que para mim era o meu brincar. Assim que as palavras deixaram a minha boca, só senti uma coisa: vergonha. Vergonha de ser adolescente, uma criança em corpo de mulher, vergonha de brincar e criar, vergonha de ter admitido isso em voz alta.
E de repente todas as minhas brincadeiras se tornaram segredos. Na minha vida eu não tinha mais espaço para desenhar, escrever, inventar histórias mirabolantes, pois era tudo coisa de criança, não serviam a nenhum propósito, logo eram inúteis. Me afundei em estudos, fiz cursinho, passei na faculdade, me formei, e só hoje estou me permitindo brincar novamente. Ou, na linguagem dos adultos, ter um hobby.
Enquanto pensava em criar essa página para me reconectar à escrita, inevitavelmente pensei num título. Ghosting, do inglês, é a arte de subitamente cortar a relação com alguém, evitando comunicação com a outra pessoa, impedindo toda forma de contato. E não é que foi exatamente o que eu fiz comigo mesma aos 13 anos?
Então essa não é exatamente uma carta para a minha “eu” adolescente. Mas é uma tentativa de retomar contato com ela e com uma de suas grandes paixões. Uma tentativa de transformar um ponto vulnerável (que um dia já foi uma potência), em uma vantagem de novo. Porque hoje, adulta, posso dizer pra ela: “tá tudo bem, não precisa ter vergonha, não há nada de errado em fazer algo que você gosta e é boa”.
hobby é uma palavra que os adultos inventaram para poderem brincar

